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Marcos do Val mudou versão após ser ameaçado por extremistas e receber telefonemas dos filhos de Bolsonaro

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Pela manhã, Marcos do Val disse ter sido coagido por Bolsonaro a apoiar um golpe de estado. A denúncia, gravíssima, pavimentaria o caminho para a prisão do ex-presidente. Sofrendo ameaças, senador agora afirma que Bolsonaro não orquestrou o plano e que 'apenas' participou da conversa. Objetivo era anular o resultado democrático das eleições e impedir a posse de Lula. Áudios e prints revelados por Do Val já estão sendo periciados pela PF

Senador Marcos do Val (foto: Marcos Oliveira/Agência Senado)

O senador Marcos do Val (Podemos-ES) mudou sua versão sobre a trama golpista para a qual teria sido convidado em dezembro passado. Em entrevista coletiva nesta quinta-feira (2), ele disse que a iniciativa foi do ex-deputado federal Daniel Silveira (PTB) e colocou o hoje ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na condição de ‘ouvinte’. Do Val recuou ainda do anúncio de que iria deixar o mandato.

Após a denúncia inicial contra Bolsonaro surgir, Do Val passou a ser ameaçado pelo núcleo duro do bolsonarismo não apenas nas redes sociais, mas também internamente. As informações são de dois assessores que trabalham no Senado Federal e pediram que seus nomes se mantivessem em sigilo.

Nas redes, os filhos do presidente e os principais deputados bolsonaristas passaram a execrar Marcos do Val minutos após a publicação das denúncias. Eduardo Bolsonaro e Flávio Bolsonaro chegaram a telefonar para o senador na manhã desta quinta.

Marcos do Val já havia relatado que estava “muito assustado”. Com histórico dentro das forças de segurança pública, em especial no seu estado de origem, Espírito Santo, o senador sabe da forte ligação que existe entre o clã Bolsonaro e a milícia.

“O que ficou claro para mim foi o Daniel [Silveira] procurando uma forma de não ser preso de novo. Toda hora ele descumpria as ordens do ministro [Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal]. Ficou muito claro que ele estava num movimento de manipular e ter o [então] presidente [Jair Bolsonaro] comprando a ideia dele”, disse o senador, contradizendo seu próprio depoimento anterior.

Mais cedo, a revista Veja publicou reportagem que contava a versão inicial da história dada por do Val, que citava papel ativo de Bolsonaro na conspiração. O texto da revista foi publicado horas depois que do Val antecipou, em live na internet, que a reportagem seria publicada na próxima sexta-feira (3).

Segundo depoimento do senador citado pela reportagem, Bolsonaro teria dito que do Val iria “salvar o Brasil”, que havia acerto com o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e que apenas cinco pessoas teriam conhecimento do plano golpista.

As últimas horas foram intensas para o senador capixaba. Antes da eleição para a presidência do Senado, que teve vitória de Rodrigo Pacheco (PSD-MG), ele foi pressionado por bolsonaristas nas redes sociais, acusado de “traição” contra o candidato apoiado pelo ex-presidente de extrema-direita, Rogério Marinho (PL-RN).

Na madrugada de quinta, depois de escrever várias respostas a críticos, ele fez uma postagem em que afirmava estar saindo “definitivamente” da política. Eleito para o Senado em 2018 na esteira da “antipolítica” que teve Bolsonaro como maior representante, ele disse ainda estar se organizando para voltar aos Estados Unidos, onde trabalhou antes de ingressar na carreira parlamentar.

Na nova versão, apesar de dizer que não partiu de Bolsonaro a ideia de orquestrar um golpe de estado, Do Val afirma que o ex-presidente não fez nada ao escutar o plano de Silveira. “Ele não chegou a falar nada do tipo ‘senador, pensa’, não falou nada disso. Por outro lado, ele [Bolsonaro] também não impediu o Daniel [de falar o plano]”.

Questionado se Bolsonaro estava correto em, na posição de presidente da República, participar de uma reunião sobre um plano para gravar um ministro do Supremo, Do Val respondeu: “Isso cabe a ele [Bolsonaro] não a mim. Eu fiz meu papel de não prevaricar e comuniquei o ministro”.

Do Val terá de escolher entre uma das versões – ou uma nova – nas próximas horas, já que Moraes, responsável pelos inquéritos dos atos antidemocráticos no Supremo, atendeu a pedido da Polícia Federal (PF) e autorizou coleta de depoimento do senador.

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